O último dia começou com uma surpresa agradável. Os Summer of Hate, chamados a substituir os Levitation Room, receberam a tarefa pouco confortável de abrir uma tarde em que três dias de festival já começavam a pesar nos corpos. Não se intimidaram. Foram crescendo ao longo do concerto e deixaram uma impressão difícil de ignorar. Há bandas que precisam de tempo para encontrar o seu lugar; outras parecem chegar já com uma identidade suficientemente definida para nos fazer querer saber o que vem a seguir. Os Summer of Hate pertencem, prometem.
Os Primitive Ring mantiveram a tarde em movimento. Foram eficazes, diretos, sustentados por riffs pesados e um groove que rapidamente encontrou resposta do público. Sem necessidade de grandes desvios, cumpriram aquilo que a música pedia: peso, ritmo e andamento.
Com os Margarita Witch Cult, a fasquia subiu consideravelmente. Cada vez melhores, cada vez mais seguros, os britânicos encontraram à sua frente um público que já não precisava de ser convencido. O cruzamento entre stoner doom, heavy metal clássico e uma quantidade generosa de fuzz ganhou em palco uma dimensão ainda maior, e a adesão foi imediata e a energia restaurada. Terminaram a atuação com um delicioso e inteligente medley de Black Sabbath, que arrancou as devidas e merecidas vénias.
Os Necrot vieram escurecer definitivamente a tarde. Pesados, densos e sem grandes concessões, trouxeram um death metal de raiz antiga, com ligações ao crust punk, que parece trabalhar o som como uma matéria compacta. Não há muito espaço para respirar, e essa parece ser a intenção. Para terem a certeza do que estavam a fazer, perguntaram à plateia “Is this metal enough for you?”… e obtiveram um estrondoso “Siiiiimmm!!!””.
Depois chegaram os 1000mods e aconteceu uma daquelas coisas que ajudam a explicar por que razão se continua a atravessar o país para ver música ao vivo. A relação da banda grega com o público do SonicBlast parece ultrapassar a simples familiaridade. Desde os primeiros acordes, percebeu-se que aquelas músicas já pertenciam também a quem estava do outro lado do palco. Cantavam-se letras, antecipavam-se mudanças e, em vários momentos, até os riffs eram acompanhados em coro. É raro assistir a uma plateia que parece conhecer uma guitarra de memória.
Os 1000mods estiveram à altura dessa devoção. Generosos, intensos e completamente confortáveis naquele território, transformaram o concerto numa celebração coletiva, com crowdsurfing, movimento permanente e proximidade. Houve ainda espaço para uma homenagem a Ozzy Osbourne durante “Overthrown”, mas o essencial estava na forma como banda e público pareciam falar uma linguagem comum. Foi um dos grandes momentos do festival.
Os Teen Mortgage mudaram imediatamente o discurso. O duo norte-americano fez a sua estreia em Portugal com um garage punk veloz, agressivo e, ao contrário da maioria das bandas do cartaz, foram explicitamente políticos. Antes mesmo de deixar a música falar, houve referências à Palestina a Trump e aos direitos das mulheres. Num festival onde a comunicação se fez sobretudo através do volume, dos corpos e das guitarras, foi talvez o momento em que a palavra assumiu mais claramente uma posição.
Depois disso, tocaram como se tivessem muito pouco tempo para dizer tudo. Curtos, rápidos e tensos, os temas sucederam-se com uma urgência quase nervosa.
Com os Elder, o festival voltou a mudar o tom. O recinto estava praticamente cheio para receber uma das bandas mais aguardadas do dia. O som ganhou profundidade, espaço e detalhe. As composições abriram-se em longas progressões onde o peso convive com uma dimensão progressiva e psicadélica. Há nos Elder uma particular capacidade para construir densidade sem transformar tudo numa parede indistinta. As guitarras crescem, afastam-se, regressam; as texturas sobrepõem-se e a música parece avançar por camadas. Um concerto tecnicamente muito sólido, mas sobretudo um concerto com espaço interior.
Os High on Fire fizeram precisamente o contrário. Tudo neles parece partir de uma ideia de excesso. A começar no volume. O som estava tão alto que se tornava difícil compreender a opção, sobretudo numa banda que não necessita de esmagar fisicamente o ouvinte para provar o peso que já existe nas próprias composições. A intensidade é parte fundamental da linguagem dos High on Fire. Riffs estruturados, bateria avassaladora e uma energia que encontrou resposta imediata numa plateia ainda disponível para mosh pits e crowdsurfing. Talvez o paradoxo do concerto tenha sido esse: mesmo quando o som parecia ultrapassar aquilo que a música precisava, os High on Fire continuavam suficientemente poderosos para sobreviver ao próprio excesso.
Depois da avalanche, os Adult mudaram o tom da noite. As guitarras cederam lugar à eletrónica escura, às máquinas e a uma pulsação industrial. Ao fim de três dias dominados pelo fuzz e pela distorção, a frieza eletrónica funcionou quase como um limpa-palato.
Já para lá das duas da manhã, os Early Moods devolveram-nos às guitarras. O doom e o heavy metal de inspiração clássica. Coube aos Ungraven fechar o Sonic Blast.
Três dias depois, ficavam o cansaço, a artrite a dar de si, os ouvidos saturados e aquela estranha resistência em abandonar o recinto. Na mochila da memória, trazem-se novos e antigos abraços, sons revistos e outros descobertos, novas histórias para partilhar e a certeza de que o SonicBlast continua a ser um festival com uma áurea e personalidade muito próprias.
Agora na direção contrária, é encarar os mesmos 347 quilómetros de asfalto. A distância continuava a ser a mesma. O tempo, já não.










