📷 Pedro Gama
No dia 26 de março, o Auditório Carlos Paredes recebeu Pedro Antunes para a apresentação de “Asas de Borboleta”, num formato performativo em que o confronto não foi corporal, mas profundamente emocional, onde a música se sentiu na pele.
Com pouco mais de uma centena de lugares, o Auditório Carlos Paredes impõe uma regra simples: não há distância entre artista e público, sobretudo com a sala praticamente esgotada. Ao contrário dos espaços maiores, onde o som preenche o vazio, aqui é o silêncio que constrói a tensão. Pedro Antunes percebeu-o desde o primeiro momento: cada nota, cada impacto das baquetas, ganhou peso; cada pausa tornou-se significativa.
A proposta de “Asas de Borboleta” vive precisamente dessa subtileza. Não há explosões gratuitas nem virtuosismo exibicionista. O concerto construiu-se sobre dinâmicas controladas, arranjos minimalistas e um foco absoluto na mensagem e na intenção.
A bateria, elemento central deste espetáculo, não surge como mera ferramenta técnica, mas como uma extensão emocional — numa abordagem próxima da de um instrumento solista, onde cada frase carrega uma identidade própria.
Há, além disso, uma clara preocupação narrativa. Os temas não aparecem como peças isoladas, mas como capítulos de um percurso contínuo, quase cinematográfico, por vezes até teatral.
A sala manteve-se num estado de atenção raro: sem ruído, sem dispersão, profundamente respeitosa. Este tipo de resposta não se impõe, conquista-se.
Sem recorrer a efeitos fáceis, o concerto apresentou vários momentos de verdadeiro impacto: passagens delicadas em que a sala parecia suspensa, crescendos subtis construídos com paciência e uma interação discreta, mas eficaz, entre artista e público. Nada foi excessivo — e isso acabou por ser a maior força do espetáculo.
Este não foi um concerto de intensidade física; foi, acima de tudo, um exercício de precisão emocional. Num circuito cultural onde tantas vezes se confunde volume com impacto, Pedro Antunes fez precisamente o contrário: reduziu para amplificar. E resultou.
Não foi um concerto para todos. Foi um concerto para quem está disposto a ouvir e, acima de tudo, a sentir.
Bravo, Pedro.



















