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SonicBlast 2026: 347 quilómetros até um lugar fora do tempo dia 2

August 13, 20267 min de leitura

O segundo dia começou em casa. Os portugueses Jesus The Snake abriram a tarde com o seu psicadelismo instrumental, construído em progressão lenta e harmoniosa, entre guitarras, teclados e longas paisagens sonoras. Foi um bom começo para um dia que se adivinhava pesado, mas que entrou sem pressa. A aproximação aos temas mais submersos dos Pink Floyd faz parte do próprio ADN da banda e o final, com uma versão particularmente bem executada, funcionou menos como homenagem reverencial do que como ponto de encontro. O público reconheceu-a imediatamente e a distância entre palco e plateia encurtou-se de forma natural.

Os Hög avançaram por um território de heavy-psych, stoner e hard rock de riffs musculados, distorção e uma pulsação que devolveu peso à tarde. Há qualquer coisa de deliberadamente pouco polido na sua música: não procura o detalhe atmosférico mas antes o movimento, o volume e a eletricidade de uma guitarra que ocupa quase todo o espaço disponível.

Dead Meadow deveriam ter sido os próximos, mas um cancelamento de última hora obrigou a nova alteração do cartaz. Coube aos Clamm regressar ao palco, menos de vinte e quatro horas depois da atuação do primeiro dia. O imprevisto acabou por funcionar quase como uma segunda oportunidade: mais soltos e perante um público que foi crescendo ao longo do concerto e reencontraram o punk seco e direto que na véspera tinha sido condicionado por alguns problemas técnicos.

Com os Voivod, a expectativa tornou-se visível. O espaço encheu-se para receber uma das bandas mais aguardadas do cartaz e havia uma espécie de reverência antecipada perante os canadianos. Décadas depois, continuam a produzir uma música difícil de arrumar num único compartimento: metal, thrash, progressivo, dissonância e ficção científica coexistem numa linguagem que é reconhecível. A resposta foi ruidosa, física e entusiástica, com a banda a corresponder a um público que claramente a esperava.

Depois vieram Conan e, com eles, outra espécie de peso. Menos cerebral, mais telúrico. O trio britânico trabalha a repetição como força e o volume como matéria, criando uma pulsão contagiante. O concerto ganhou rapidamente dimensão física: cabeças em movimento, corpos sobre a multidão e um circle pit que acabou por abrir espaço no meio da plateia.

Os The Casualties trouxeram outra urgência. O street punk dos nova-iorquinos não vive de subtilezas. Ritmo acelerado, refrões lançados à multidão e uma comunicação permanente com quem estava do outro lado da barreira deram ao concerto uma energia muito própria. O vocalista acabaria, à semelhança do que já acontecera com os Trash Talk no primeiro dia, por abandonar o palco e mergulhar diretamente no centro da agitação que ajudara a criar.

Os Kylesa eram outro dos nomes que suscitava expectativa. O regresso da banda depois de uma longa interrupção tornava a presença no SonicBlast especialmente apetecível e o seu cruzamento de sludge metal, stoner e psicadelismo conserva uma identidade difícil de confundir. Houve peso, riffs e aquela capacidade de fazer a música oscilar entre a violência e uma estranha dimensão hipnótica. Mas o som não esteve sempre à altura do que acontecia em palco. Algumas camadas perderam definição e o efeito de massa, essencial à música dos Kylesa, nem sempre chegou cá fora com a força que parecia existir lá em cima.

Depois chegaram os Turbonegro. Há bandas que conquistam um público pela intensidade e outras que sabem seduzi-lo. Os noruegueses pertencem decididamente à segunda categoria. Glam, hard rock e punk convivem naquela fórmula que batizaram de deathpunk, acompanhada por toda uma iconografia própria de marinheiros, cabedal, provocação e humor. Desde os primeiros minutos percebeu-se que não vinham apenas tocar canções: vinham montar um espetáculo. A teatralidade nunca se sobrepôs à música, mas amplificou-a. Houve pose, ironia, movimento e uma cumplicidade permanente com uma plateia que se deixou conquistar sem resistência. Quando “All My Friends Are Dead” foi devolvida em coro por todo o recinto, os Turbonegro tinham o público na mão e foi um dos concertos da noite.

Os Deathchant receberam a tarefa ingrata de tocar depois disso e responderam com eficácia. O vocalista avisou que a sua voz não estava a cem por cento, mas a limitação não retirou nervo à atuação. Entre hard rock pesado, riffs largos e uma energia quase despreocupada, a banda avançou sem dramatizar o contratempo.

Madrugada dentro, Goya devolveram o festival à lentidão e ao peso. O seu stoner doom saturado de fuzz prolongou a noite numa massa sonora densa, arrastada, quase narcótica.

N8NOFACE encarregou-se de desfazer qualquer hipótese de contemplação com a sua eletrónica industrial, o synth-punk e uma presença frenética preencheram as últimas horas do festival.

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