A distância entre Lisboa e a Praia da Duna dos Caldeirões mede-se em cerca de 347 quilómetros de asfalto, mas também é nostálgica. Não se trata de procurar refúgio numa nostalgia confortável, mas de perceber o que permanece e o que ainda resiste numa determinada ideia de música, de comunidade e de experiência coletiva.
À entrada no recinto, a própria paisagem humana convida à observação. Há uma coerência estética que recorda os festivais como Vilar de Mouros ou o Sudoeste nas suas primeiras edições. As réplicas de Zappa, as t-shirts em alusão às bandas em cartaz e a cor preta dominam e dispensam a exuberância cromática das tendências. A presença expressiva de um público acima dos 40 e 50 anos confere ao festival uma particular sobriedade: esta é uma plateia que já não parece ter nada a demonstrar, que sabe esperar por uma canção, reconhecer o silêncio entre duas notas e compreender o peso, literal e metafórico, de uma parede de distorção.
Dia 1
O primeiro dia começou sob o signo do imprevisto. Os britânicos Elephant Tree anteciparam a sua atuação devido a uma alteração forçada do alinhamento e subiram ao palco sem o vocalista, afastado por motivos de saúde. Para uma banda cuja identidade se constrói sobre uma arquitetura densa de doom e stoner rock, a ausência da voz podia ter sido um problema, mas essa vulnerabilidade acabou por jogar a seu favor. Despidas da componente vocal, as músicas revelaram a espessura instrumental sobre a qual assentam e o público respondeu com generosidade.
Seguiram-se os australianos Clamm. O trio de Melbourne trouxe um punk direto, minimalista e eficaz, construído sobre repetição e tensão.
Os Trash Talk levaram essa dimensão física vários passos mais longe. O seu concerto foi tudo menos uma atuação convencional. Foi um exercício de ocupação de espaço. A distância entre palco e público foi-se esbatendo. transformando o recinto numa massa única, instável e participativa. O momento mais simbólico aconteceu quando o vocalista se lançou para o meio da multidão e continuou a cantar entre os espectadores, enquanto o baixista se erguia sobre dezenas de braços. Mais do que uma acrobacia de palco, a imagem sintetizou aquilo que os Trash Talk procuravam construir: uma atuação entendida como fenómeno corporal, feita de proximidade, risco e contacto.
Logo depois, os norte-americanos Midnight mudaram o vocabulário, mas não a intensidade. O seu speed metal primitivo e acelerado parece convocar deliberadamente o espírito dos Motörhead, cruzando rock’n’roll, punk e metal numa fórmula sem ornamento e sem pretensões conceptuais. É música feita para avançar, rápida e agressivamente, e é precisamente nessa frontalidade que reside a sua eficácia.
Foi com os Frankie and the Witch Fingers, contudo, que a tarde ganhou outra densidade musical. A banda apresentou uma das atuações mais sofisticadas do dia, construída sobre uma linguagem psicadélica rica em texturas, variações tímbricas e complexidade rítmica. A reverberação não surgiu como mero efeito atmosférico, mas como parte integrante da composição, abrindo espaço entre guitarras, vozes e secção rítmica. As mudanças de compasso, incluindo passagens em 7/4 e 6/8, surgiram integradas numa música que consegue ser cerebral sem perder o impulso físico.
Com os Deafheaven, a tarde cedeu definitivamente lugar à noite. Há qualquer coisa de pictórico na forma como a banda constrói os seus concertos. Luz, sombra, densidade e vazio sucedem-se como elementos de uma composição visual. Se quisermos procurar uma analogia, poderíamos encontrá-la no chiaroscuro de um quadro de Rembrandt: cada elemento parece emergir de uma zona de escuridão para depois desaparecer novamente nela. Musicalmente, essa mesma lógica organiza a passagem entre o shoegaze luminoso e expansivo e a abrasividade do black metal.
Os Deafheaven continuam a habitar esse território de fronteira com uma naturalidade rara, alternando violência e contemplação sem que uma dimensão pareça anular a outra. A interpretação vocal acrescenta-lhe uma teatralidade quase ritual, por vezes próxima da intensidade física do rock mais primitivo, noutras aproximando-se de uma expressividade extrema e quase espectral, que faz pensar num cruzamento entre Diamanda Galás e AC/DC.
Em “Winona”, todas essas tensões encontraram um ponto de equilíbrio. A canção ergueu-se como uma elegia contemporânea, simultaneamente delicada e devastadora, feita de melancolia, ruído e suspensão. Foi sem dúvida um dos grandes concertos da noite.
O contraste conceptual chegou com os Chat Pile. O carisma do vocalista, que evoca uma intensidade crua e urbana de um Henry Rollins funcionou como fio condutor de uma narrativa fragmentada e cinematográfica. Se noutros palcos as suas alusões foram para a trilogia Jaws (ou Tubarão), no Sonic Blast trouxe o filme 1492 : Colombo de Ridley Scott.
Entre os acordes abrasivos de um Sludge sem regras sob as deambulações sobre o desempenho de Michael Wincott, Kevin Kline em “In and out”, Tom Selleck e a partilha de ter trabalhado num centro comercial na equipa de manutenção. A repetição ritualística da palavra Portugal funcionava como ancora num monólogo que roçava o teatro do absurdo.
Os Snapped Ankle marcaram a mudança de ritmo e texturas. Com uma indumentária que nos leva ao imaginário dos transmontamos Caretus – aquelas figuras pagãs – entregaram uma eletrónica pulsante e orgânica, sustentada por um baterista soberbo. As texturas ricas e o pulsar hipnótico da secção rítmica convocaram uma dimensão quase tribal.
Bongzilla, Mephistofeles e Madmess fecharam o dia.










