A ler: A delicadeza intensa de Black Sea Dahu iluminou a Sala Capitão

Loading
svg
Open

A delicadeza intensa de Black Sea Dahu iluminou a Sala Capitão

April 30, 20263 min de leitura

📷 Pedro Gama

Há concertos que parecem conversas sussurradas ao ouvido, segredos partilhados entre amigos num final de tarde morno. Foi precisamente esse o sentimento que pairou na Sala Capitão na passada quinta-feira, quando os suíços Black Sea Dahu, liderados pela magnética Janine Cathrein, subiram ao palco para uma noite de “urban folk” em estado puro.

Mal as primeiras notas de guitarra ecoaram, ficou claro que a banda não veio apenas tocar; veio criar um ecossistema. O público, que preenchia o espaço com uma expectativa palpável, foi imediatamente rendido pela voz de Janine, uma força da natureza que habita um registo grave, rouco e profundamente emotivo. O repertório focou-se intensamente no aclamado álbum I Am My Mother, mas houve espaço para as pérolas de White Creatures que os colocaram no mapa da música indie europeia.

A dinâmica entre o violoncelo, as guitarras acústicas e as harmonias vocais da família Cathrein criou camadas sonoras que pareciam demasiado grandes para as paredes da sala, mas que estranhamente se ajustavam a cada batida de coração presente. Um dos momentos mais altos da noite surgiu com a interpretação de “In Case I’m Wrong”, onde o silêncio da audiência foi absoluto, interrompido apenas pela vulnerabilidade crua da letra, provando que o folk, quando bem feito, é uma experiência quase religiosa. Entre canções, Janine partilhou histórias sobre a génese das composições, desconstruindo a aura de estrela de rock e reforçando a autenticidade que define o projeto.

O concerto na Sala Capitão não foi apenas um evento técnico de excelência; foi um exercício de empatia. Os Black Sea Dahu têm o dom raro de transformar grandes ansiedades existenciais em melodias reconfortantes, preenchendo o vazio com arranjos meticulosos e uma entrega física que raramente se vê em palcos tão íntimos.

Saímos da sala com a sensação de que o mundo lá fora estava um pouco menos caótico. Para quem perdeu, resta a esperança de que Portugal se torne uma paragem obrigatória em todas as suas futuras digressões, pois a Sala Capitão nunca pareceu tão grande, e a música nunca pareceu tão próxima.

svg
error: O conteúdo está protegido!!